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Um conto de verdade

O dia estava frio. E lá ia, o velho Genebaldo ver sua amada. Há exatos 40 anos ele a visita naquele dia, todos os meses na mesma hora. O caminho percorrido, no limiar de sua tenra idade, estava cada vez mais distante, porém, mesmo com o fraquejar de seus músculos, ele jamais deixa de vê-la. Como sempre, leva uma rosa. Cada dia de uma cor. Ele sabe o quanto ela gosta!
Genebaldo foi soldado, esteve em infindáveis confrontos. Perdeu muitos amigos. E tirou muitos amigos de outros homens. Isso lhe acompanha por toda vida.
Ele segue firme com seus passos leves. A idade mostra a ele o quanto somos frágeis.
Sua amada sempre lhe instiga. É ela que permite que ele seja assim, persistente.
Genebaldo, um homem crente em seus sonhos. E aquele dia, é sempre o dia da verdade.
Ao chegar, observa a imensidão da solidão, as lápides que demonstram a tristeza da partida...
Na última batalha, Genebaldo preparava-se para voltar. Não queria mais sangue, mas estar ao lado da amada.
Não teve chance de viver seus sonhos. Quis o destino que um câncer de pulmão separasse Genebaldo de sua verdade.
Então, ano a ano, ele vai ao seu túmulo entregar todas as rosas que jamais teve possibilidade de dar em vida... E chorar suas verdades, como se nada mais tivesse sentido. Quarenta anos se passaram, e o ritual prossegue.
Genebaldo nos ensina muito, mas o que mais remete a sua trajetória, talvez seja a forma que escolhemos dar os passos...
Quis ele, que nos melhores anos da vida, escolhesse a guerra, e, agora, nos anos que lhe restam, busca a solidão de um amor que partiu...
Por isso, jamais se esqueça de suas verdades, elas lhe acompanharão por toda sua existência... Neste e em outras vidas...

Jorge Amaro